A visita

Uma noite, Francisco sentado nos degraus da soleira da porta do casebre onde morava, pitava seu cigarro de palha que acabara de enrolar, sentia ainda o quentor do jantar na bariga quando recebeu a visita da Morte.
Disse ele: “Noite!”
Respondeu a Morte:”Boa noite, José Francisco!”
Estranhando, olhou pra ela e perguntou: “Como vossamercê sabe meu nome se acabei de a conhecê-la?”
Eis que ela responde:”Eu sei o nome de todos e conheço todos. Será que você também não me conhece?”
Coçou a cocuruto e disse:”Ói, pela magreza do corpo, pela brancura da pele e pela feiúra, boa coisa não deve ser. Diga-lá, home, qual o nome que atende?”
Ela disse: “Eu sou a Morte!!!”
O olhos de Francisco arregalaram, era aquilo mesmo que aquela alma penada parecia. A morte!
Mas matuto velho, acostumado com as coisas da vida (e da morte também) perguntou: “De passagem???”
A Morte lhe disse: “Vim aqui por você?”
“Por mim? Pudera. Tô vivinho aqui e cheio de saúde. Agora mesmo acabei de comer um prato de frango com macarrão que ainda tá quente na minha pança!”
“Não vim para levá-lo ainda. Vim somente lhe fazer uma pergunta. Uma vez por ano, me é dado por Deus o direito de contar pra algum ser desta terra o dia e hora da sua morte e eu vim aqui lhe perguntar: ‘Você quer saber quando vai morrer?'”
Francisco, pensou, pensou e disse: “Mas de quem me adianta saber o dia da minha morte?”
A Morte lhe disse: “Assim poderá prepará tudo na sua vida, deixar as coisas feitas e fazer o que ainda há de fazer antes de morrer!”
“Bah! Que nada! Pouco me interesssa quando vou morrer. Além do mais eu já sei o dia que vou morrer!” – exclamou Francisco.
“Sabe??? Como assim???” Exclamou com espanto a Morte.
“Sei sim. O dia que eu morrer, o sol não vai nascer, não sentirei mais fome, nem sono, as estrelas não brilharão no céu e neste dia você vai estar aqui não pra me fazer perguntas mas pra segurar minha mão e levar. Então, cara conhecida, até lá, viverei cada dia que virá com a fome, o sono, o sol nas costas quando capino e o medo do escuro! Mas sei que a cada dia sentirei saudades, amarei minha esposa, verei meu filhos crescerem. Um dia de cada vez. Pois Jesus disse: ‘Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã; porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.'”


Sexta, 22 de julho de 2011 às 11:39



Timoneiro

Diziam que foi uma senhora judia que ensinou Ismael a navegar nas tormentas. Ela lhe disse que a turbulência não cessaria nunca. Que o importante era ter a tempestade sempre em mente e se ater ao que fazer no momento exato. Não se prender ao que deveria ter sido feito ou ao que deveria fazer dali a segundos. E que nunca existe um “ter que” fazer na vida de navegante. Só o “poder ser.”
Só se sabe que embarcou no Pequod e nunca mais foi visto.

Sexta, 15 de julho de 2011 às 20:56

Osvaldo

Osvaldo saiu da toca assustado. Naqueles dias de inverno não saia muito de lá. Especialmente depois de todos os sustos que levou. Da loba que levou seus filhotes. Do mão pelada que roubou suas cenouras. Osvaldo, que um dia era corajoso, hoje morria de medo de sair.
Mas naquela noite se aventurou. O ar estava fresco e a temperatura agradável.
“Foi um bom passeio.” – pensou o esquilo quando tornava para a toca.
Mas no caminho de casa, o grito sofrido de um corvo o entristeceu e sentiu mais solidão.
E o pior ainda estava para acontecer quando encontrou em sua casa a Raposa esperando.
Eis que ela disse: “Já fizeste seu passeio, agora o jantar é meu.”
O coração de Osvaldo disparou e não conseguia respirar. Pôs-se a chorar. Não entendia por que não podia ousar ter um minuto de paz.
E a Raposa, com os dentes pontudos e brilhantes disse: “É tudo simples, eu sou o predador e você, caro esquilo, é o meu jantar.”
Fugiu por todos os lados até cansar. A raposa era mais forte e poderosa e o encurralou. A Osvaldo só restou se esconder, fechar os olhos e esperar o fim.
Esperou, esperou, até que adormeceu.
E sonhou com o corvo triste que não pode ajudar e com a Raposa que o perseguia.
Mas acordou pensando no Texugo que teria que enfrentar naquela manhã.
Se sentiu menor e quis voltar a dormir.
Não conseguiu pois na sua cabeça martelava a seguinte frase: “Quem nasce pra presa, nunca chega a predador.”

Quarta, 13 de julho de 2011 às 00:37