Estudo para um samba

Decida você.
De quem é a contradança.
Você veio ao baile acompanhada mas insiste em me tirar pra dançar.

Decida você.
Pra onde vão seus pés.
Quando quem esquenta eles está do seu lado.
E você insiste em calçar minhas meias.

Decida você.
Pra onde vai esse seu amor.
Que beija outra boca
Mas insiste em ouvir palavras da minha.

Decida você,
Pois eu vou dançar com uma boca que me ame.
E beijar pés que me tirem o sono.

Segunda, 26 de setembro de 2011 às 22:44

Estacionado

Enfiou a mão no bolso da calça jeans que acabara de tirar do armário. No fundo, em frangalhos, uma bola de papel lavada. Abriu e viu que era o bilhete do estacionamento da última vez que saiu com ela.
A lembrança tomou sua alma e a saudades ocupou o pensamento…

Sorriso de canto de boca

Gustavo adorava encontrá-la com aquele sorriso. Era um sorriso tímido, quase infantil. O lado esquerdo da boca se levantava enquanto o outro se esforçava pra manter a compostura. A isso somava um olhar pra baixo que não encarava, mas quando encontrava os olhos de Gustavo, era de um brilho molhado que dizia: “Te quero.”
Nesses encontros, os beijos, os abraços e os gemidos eram muitos. E pouco importava onde estivessem, numa cama, no sofá da sala, no carro em uma garagem. O que importava é que estivessem.
E nesse instante, os dois eram só amor.

Terça, 20 de setembro de 2011 às 09:37

Furacão

Ele apareceu como aparecem todos os furacões, em uma conjunção de pressão, temperatura e movimento dos ventos.
Coloquei o nome de Ana Lucia. Nunca entendi por que furacões são batizados, nem como e nem por que usam nome de mulher.
Quis me levar por várias vezes, mas me agarrei a tudo que era sólido e real. Quando eu achava que tinha ido embora, ele reaparecia e quase me levava. Na verdade, eu queria ir, voar, perder-me.
Mas eu sempre o via preso às nuvens e ao solo e dizia: “Não irá me levar a lugar algum a não ser ao meu fim.”
Relutei e lutei.
Um dia ele se foi.
Nesse dia a falta das turbulências que ele causava bateu forte.
Nesse dia, aluguei um veleiro e fui procurá-lo. Se o acharei, não sei. Mas cá estou no barco rumo ao nowhere de alhures.

Terça, 20 de setembro de 2011 às 09:28