Ofertório

Marialva pensava que se casasse com Josinaldo todos aqueles problemas passariam.
Era tudo uma questão de ajuste. Josinaldo acalmaria no trabalho e no boteco e o ciúmes que a consumia partiria.
Na noite da boda, Marialva pura e branca deitou-se na cama de vestido e esperou que Josinaldo chegasse e o arrancasse. Mas o tempo passava e Josinaldo nada que chegava.
Uma hora, duas horas. E nada.
Resolveu voltar pra festa que ainda rolava alto do lado da Igreja.
Assuntou por Josinaldo e nada.
Foi então à sacristia e ninguém estava por lá.
No entanto, do quarto do padre ouvia altos gemidos. Estranhou mas sabia que seu primo, padre Tonho, de santo não tinha nada, mas pra ela aquilo era abuso.
Deu meia volta e resolveu não bolir com o que não era da sua conta. Não é então que ela escuta a voz de Josinaldo gritando de dentro do quarto. E bastante animado.
Marialva que era mulher de paciência grande, mas de pavio curto abriu a porta de porrada e quase morreu do coração.
Na cama Josinaldo de quatro com seu primo Tonho de cachorrinho engatado.
Atordoada e de sangue nas orelhas, fula como só uma mulher traída por dois homens de uma vez só podia estar procurou o que podia pra dar de coça nos dois.
E eis um ofertório de metal maciço aparecia abandonado em cima da penteadeira.
Não pensou duas vezes, ou melhor, foram duas, uma na cabeça de cada cabra engatado.
Morreram na hora, de sanque pra todo lado.Se alguém visse Marialva naqueles tempos jamais imaginaria que aquele toco de mulher pudesse matar dois homenzarrão de uma vez com uma peça tão pesada.

Hoje ninguém explica direito aquilo. Acharam os dois mortos ainda engatados e o ofertório caído sujo de sangue no chão. Um dizem que foi ladrão. Outros dizem que foi um noviço que teria participado da orgia, mas ninguém conseguiu provar nada pois naquela hora o noviço tava jogando pescaria na barraca no meio da festa. Outros dizem que foi justiça de Deus. Mas ninguém sabe que Marialva guarda em casa o vestido branco sujo de sangue até hoje num baú no pé da cama.

Uma coisa ela tava certa, o casamento acalmou ela e Josinaldo.

Segunda, 6 de fevereiro de 2012 às 22:25

Amor engaiolado

Foram 6 meses de entendimentos e desentendimentos.
Quando o menino percebeu que era louco pela menina fez de tudo. Virou anjo. Virou sabiá. Se engaiolou. Desaprendeu a voar sozinho. Até comer era difícil.
A menina retribuía com uma atenção que ele nunca tinha tido. Uma presença quase constante. Uma dedicação sem igual.
Certo que queria o menino só pra si e cobria a gaiola com um pano de seda rosa e branco quase toda noite.
Ela queria ver o menino cantar mas ao mesmo tempo queria que fosse só pra ela e não pro mundo.
O menino era doente e foi ficando cada vez mais doente.
E a doença parecia confundir a cabeça da menina.
Eles brigavam enquanto amavam.
Ela o queria forte e brilhante e só dela.
Ele estava ficando fraco e cinza e de mais ninguém.
Até que numa noite a gaiola quebrou e quem fugiu foi ela. E ele, o menino, ficou lá sem saber por que e sentindo toda a culpa do mundo.
Só sabia que a amava mais que tudo, que estava doente, cansado e que reagira mais uma vez às atiçadas da menina.
O amor do menino está lá na gaiola no meio dos aros sangrando e vai morrer.

Mas ele vai estar lá por muito tempo.

Sexta, 3 de fevereiro de 2012 às 08:03