Pedra

Não fora apedrejado até a morte como seus irmãos, irmãs e outros parentes. Mas constantemente ao andar pela medina alguém lhe jogava pedras. Algumas acertava-lhe a cabeça e machucava de sair sangue. Outras acertavam-lhe o peito, a barriga e o baixo ventre. Apesar disso se acostumara a guardá-las. Chegava em casa e as colocava num cesto ao lado da cama de palha no chão do quarto.

Naquele dia, cansado dessa rotina deixou as 5 maiores pedras sobre a mesa da sala, escreveu uma carta e a deixou sob as pedras. As lágrimas borraram os traços sobre o papel.

O que estava escrito nunca se soube, nem tampouco o motivou a fazer o que fez a seguir.

O que se encontrou além da carta sobre a mesa foi um banco caído, um lençol amarrado no mastro principal do telhado e preso no seu pescoço. Encontraram uma foto da esposa caída no chão com os vidros quebrados e uma pedra grande ao lado.

Talvez tenha morrido sonhando que ser apedrejado até a morte lhe dava mais honra que estar casado com quem o odiava tanto.

29 de março de 2012 às 23:18

Ontem recebi uma visita tua,

Ontem recebi uma visita tua,

Vinhas na forma do meu pai. Mas podre e deteriorado. Tuas mãos como raízes entraram nos meus braços, paralisando-os. A dor, pra quem como eu que conheceu várias definições delas, era indescritível.Gelavas minhas veias e o meu coração Enquanto sussurravas que algo grave iria me acontecer. Não sei se era terror ou a sugestão dele,Não despertava do pesadelo horrível,Enquanto a carne podre do meu pai se misturava a minha. A morte estava lá,

Não como sempre esteve, Dessa vez não tinha vindo mostrar-se e levar algo querido.

Ela, acompanhada do seu marido destino, sempre me mostrou horrores,

Que via mesmo não querendo enxergar.Os sons, os cheiros, os gritos. Mas nunca eram meus. Desta vez veio sozinha,E veio para mim,Na forma do cadáver do homem que mais amei. Não sei o que quer. Mas sei que vai voltar. Tenho medo do dia que a carne de um Otavio seja a mesma de outro. E que ela não volte mais.

Quarta, 21 de março de 2012 às 11:56