Lavagem cerebral

A mão ensangüentada segurava os comprimidos. Tremia, excitado pela ideia de por um fim na vida.

Estava cansado de tudo.
Cansado de não ter mais esperança e só ter decepções.

O sangue manchava os comprimidos a ponto de conferir-lhe um gosto metálico na boca.

Engoliu de uma vez a constelação de capsulas azuis, amarelas, brancas, bicolores brilhantes.

Teve a preocupação de tomar os hipnóticos primeiro, que sobre a ação do álcool aceleraria o sono, enquanto os demais comprimidos faziam efeito.

Tomou dois goles de pinga direto da garrafa e deitou na cama, esperando que o sono viesse e o levasse embora.

Começou a devanear e nessa alucinação seu pai o chamava para perto dele.

Era como se nadasse em direção a ele.

De repente, sentiu canos serem enfiados pelo seu ânus e pela boca e nariz e uma enxurrada de água que quase o afogava.

Pensou ser ainda uma alucinação onde alienígenas faziam experimentos com ele.

Desmaiou.

Cinco dias depois acordou com dores na garganta e no cu. Pensou ter ido pro inferno onde o sodomizaram e obrigaram a engolir o pau dos demônios.

Olhou para os lados e viu cânulas e fios que saiam do seu corpo. Viu uma moça de jaleco azul, uma enfermeira, tentou chamá-la, quando escutou:
“É um infeliz que tentou suicídio, agora vai ficar como um vegetal para o resto da vida!”

Outra moça respondeu:
“Olha! Ele abriu os olhos, será que nos escuta!!”

A primeira enfermeira respondeu:
“Isso é só reflexo, esse aí tem menos percepção que um pé de cenoura.”

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