Tempo I

Olhou para o calendário.
Olhou para a agenda sobre a mesa.
Olhou para o relógio do celular.
Olhou para as horas no computador.
Olhou para fora da janela para ver se a noite vinha.
Olhou para o estômago para ver se fome tinha.
Olhou no espelho as rugas que apareceram.
Olhou a escova para ver os cabelos brancos que apareciam.
Olhou para a foto da filha sobre a escrivaninha.
Olhou para as dores que vinham e iam.
Olhou para o tempo que passava e o atormentava.

Decidiu então abolir o tempo e deixar de envelhecer.

Olhou então para si mesmo e se viu jovem.

Amolher

A mulher que eu amo

Briga comigo,
Me ama de um jeito intenso.

A mulher que eu amo

Me ensina a cada dia
Que devo lutar para sorrir.

A mulher que eu amo
Me faz dormir ao seu lado
Não sem antes me manter em pé horas a fio.

A mulher que eu amo,

As vezes se sente injustiçada,
As vezes ela o é.
A mulher que eu amo
É minha melhor amiga,
E é a melhor companheira.

Este homem que a ama

Lhe é grato por ter estado por ela tanto tempo
E espera que ela esteja do lado dele por mais tempo.

Como?
Não sei.
Não sabemos.

Da incrível capacidade de tornar a vida um inferno…

Capitulo 1

Acordou pela manhã com gosto de cabo de guarda-chuva na boca. Levantou-se, cansado de mais uma noite mal dormida e foi tomar banho.
Era uma coisa simples, pensou, ligar o chuveiro e se ensaboar. Escovar os dentes e fazer a barba. Ele sabia que conseguiria.

Durante o banho repassava a agenda do dia.

De toalha na cintura fez café, esquentou o pão velho, preparou a mesa para sua mãe. Separou os remédios. Tomou ele mesmo seus remédios e algum café.

O que tinha mesmo que fazer antes de sair?
Ah, lembrou! Tinha prometido ligar para Juliana logo cedo.
Ligou. Não atendeu. Já imaginava. Devia estar dormindo. Deixou uma mensagem no celular, vestiu uma camiseta cinza e bermuda cáqui. Colocou o par de sandálias azuis. E caminhou.

Antes de sair, voltou ainda três vezes para se certificar se não havia esquecido nada.
Não levou o celular, afinal ia até ali e voltava.

Já passava das nove e meia, quando pôs o pé na rua. Inicialmente foi para a direita em direção ao leito do rio.

Ia a uma loja de material de construção para ver se conseguia comprar algumas coisas que precisava.

Foi até lá, não sem antes passar na obra atrás de sua casa para conversar sobre alguns problemas. Chegando na loja lembrou-se que tinha esquecido do molde de assento que tinha feito. Era isso que precisava para comprar. Comprou pilhas para o controle remoto da tevê. E partiu.

Frustrado pegou o ônibus para não se cansar no sol que derretia o asfalto. Tinha que ir um pouco mais longe e não queria andar.

Desceu no ponto e andou mais uns quinze minutos. Pôs a mão no celular que não estava no bolso. Sentiu saudades dela e queria ligar. Pensou, “Paciência, quando chegar eu ligo. Ainda deve estar dormindo.”

Lamentou não ter feito uma lista, ele sempre fazia. Ajudava muito. Mas comprou o que lembrou.

Olhou para o relógio da caixa da farmácia para tentar ver as horas. Não conseguiu. Então perguntou que horas eram e a moça olhou para o pulso e disse que eram onze e meia da manhã.

O coração pulou na boca. Tinha perdido a manhã mais no ir e vir que fazendo algo de produtivo. Lembrou que tinha que começar a trabalhar em um volume novo.

Saiu da farmácia pensando se ir a pé não era mais rápido. Até chegar o ônibus já teria chegado em casa tomado banho e saído.

Desceu rapidamente pelas ruelas que o levavam até sua casa. As sacolas de compras batiam e o farfalhar do plástico ritmava seus passos.

Tinha pernas compridas e compleição forte o que lhe dava um certo equilíbrio para andar de sandálias pelas ruas de paralelepípedos e as calçadas irregulares do seu bairro. Ainda assim os pés secos escorregavam pelas solas das sandálias de dedo.

Em alguns minutos alcançou a casa, bufando e exclamando: “Que calor infernal!”

Mal sabia que o inferno do dia ainda estava para começar.