Tique taque

Esquanto esperava ser chamado, Vladimir tentava fazer as contas de quantas vezes já havia passado em hospital nos últimos seis anos. Levando em consideração somente as vezes que tinha ido por razão própria. Visita a amigos e parentes não entrava na conta.

Achou que 372 um número razoável, mas certamente era mais.

No primeiro ano, com os exames, o tratamento e emergências umas 123 vezes. No segundo diminuiu para 80, estava melhor.

No terceiro a recaída,132. Lembrava especialmente desse número pelas anotações no registro do hospital. Depois de tantas idas, havia criado intimidade e saliência com as moças do atendimento e da enfermaria. Até Francisca, a chefe, a chata, a brava, já o tratava com carinho. Ele tinha ajudado a conseguir alguns livros escolares pros filhos dela. Isso lhe garantiu a liberdade de fuçar nos arquivos para fazer o levantamento.

O quarto e o quinto ano foram mais leves, só 80 vezes nos dois anos. Rotina, exames, visitas aos medicos ou alguma terapia. Nessas ocasiões aproveitava para adoçar com bombons as moças que tanto lhe trataram bem.

Mas esse sexto ano havia começado estranho. Muita gente nova, os médicos, os mesmos, mas mais ansiosos. Exames novos, resultados mais rápidos e tratamento mais pesado. No compto já foram 9 vezes. Isso assustava Vladimir.

Uma coisa o acalentava, a presença sorridente da severa Francisca. Quando, depois de quase 8 meses sem aparecer a viu, o rosto negro sorriu os dentes amarelados de tanto fumar. Vladimir sempre brincava que aquilo dava câncer e ela com sua peculiar cara de brava respondia, “Então trabalho no lugar certo”.

Abraçou-o como só os grandes de coração e brutos de gestos sabiam abraçar e disse no seu ouvido que tinha rezado muito para não ver vê-lo por ali.

E ali ele estava. Tremendo de medo e cheio de esperança que fossem as últimas.

Ah! Uma outra coisa tão presente quanto Francisca era o relógio na parede cinza que Vladimir olhava entre uma página de livro e outra, esperando passar o tempo ou esperando sua hora chegar. Pelo bem ou pelo mal.

Extremos

O que é essa coisa delicada
Que começa com um choro e termina com um suspiro?
Que no meio tem fome, tem sono, tem dor?
Que nos permite amar, sofrer e odiar?
Que nos faz chorar e rir sem parar?
Que nos traz amigos, irmãos, pai e mãe, filhos e amores?
E que os leva embora
Fugindo, desaparecendo, nos abandonando ou morrendo?

O que é essa linha fina que tem de um lado uma luz imensa
Da outra uma escuridão infinita?
Que nos amedontra, que nos faz sofrer?
Que nos faz gozar e enlouquecer de amor?

O que é que liga o nascimento à morte?

Qual o nome disso que perdemos aos poucos a cada vez que o tempo aumenta?
Ou que perderemos tão rápido quanto umas férias de verão?
E igual a esta deve ter sol, praia, sorvete, areia, água e muita paz.

O nome dela é vida,
e eu tenho muito medo de perdê-la .

Dos mistérios da doença

A estrada da doença é estreita e só cabe uma pessoa.
Não há quem possa fazer esse caminho com a gente.
Nele, quando muito, só há espaço para os que nos dão de beber e comer
Na forma de carinho e atenção.
Mas encontrar-se frágil
Por solidão.
É assim que se sente o doente. 

Estar doente é estar sozinho com a sua dor.