Verde

Sabe, moço, o que é esperança?
É um bichinho verde, que vive avoando por aí.
Mas sabe porque chama esperança?
É porque dizem que verde é a cor da esperança.
E sabe porque verde é a cor da esperança?
É porque é a cor dos olhos de todos os homens.
Mas por que seria a cor dos olhos de todos os homens?
Magina que um dia o mundo nunca que foi assim cinza desse jeito que é por essas cidadonas aí afora. Os homens viviam nas floresta, nas mata, De caçar e pescar. De comer da raiz e da fruta. Qual é a cor que ele mais via? Diga lá? Sei, sei, é claro que era o verde. O verde dava vida pros nossos pais e isso fazia feliz a vida deles. Em paz, sem carecer de brigar.

Bote reparo.de como tudo para quando está diante de um verde muito forte. E, além do mais, aprendemos nas escola que é no verde que começa a vida. Bom, sei lá, nunca fui muito de estudar. Mas só sei o que me foi contado pelo meu pai que ouviu do meu avô que era um homem que viveu a vida inteirinha no mato e aprendeu coisas que o homem não sabe.

Por isso recomendo ao sinhô, que uma vezinha por semana, coloque um lenço verde no bolso, no pescoço, no chapéu. Vista seu peito com a sua camisa verde mais linda. Ela pode não resolver os problemas trás dentro do corpo, mas vai com toda certeza que os céus podem garantir, lhe trazer paz e esperança.

Pode confiá nesse homem véio que já viu de todo tipo de cor e que procura nas paredes cinzas dessa cidade pintá-la de verde.

Doida escovada

“Eu te conheço?

Eu te conheço?
Que intimidade é essa aí?
Eu te conheço?”
Grita na rua
A doida semi-nua. 
Talvez fosse mera loucura
Ou os efeitos da lua. 
Não, não lhe conheço 
E nem lhe tenho intimidade. 
Também não tenho o que mereço,
Além de muita idade.
E urra a mulher ainda:
“Eu te conheço?

Eu te conheço?
Que intimidade é essa aí?
Eu te conheço?”

Rude, o cão

Acabo de ter agora uma das experiências mais estranhas da minha vida. E olha que de estranhezas eu entendo. 
Voltando de uma ida ao banco, encontro um amigo velho que não via há tempos, passeando com seu cachorro, um labrador lindo. Nos cumprimentamos. Mas no momento que me aproximei, o cachorro desatou a latir para mim. Um latir tão alto e descontrolado que deixou meu amigo assustado a ponto de querer ir embora. Nos despedimos a distância prometendo nos falar pelas redes da vida. 
Quando começou a partir, o cão empacou, olhava para mim e latia, latia querendo vir na minha direção. Não parecia bravo. Parecia que queria algo de mim. 
Falei pro meu amigo para voltar com o bicho, sentei na calçada, e olhei nos seus olhos. 
Nesse momento ele parou de latir e chegou mais perto. Passei minha mão atrás da sua orelha e acarinhei. Nesse instante começou a ganir empurrando minha mão. Estava estranho e, num momento de distração, puxou a guia e pulou em mim e começou a me lamber. Nunca o tinha visto na vida, mas parecia saudoso, triste como não quisesse me deixar ir. Lambeu-me o rosto todo (odeio quando cachorro faz isso) e colocou a pata na minha cara como querendo me consolar, brincar. Foi então que eu percebi o que estava acontecendo. 
Já havia lido artigos científicos que diziam que certos cães percebem variações nas proteínas exaladas pelo odor. Então entendi que Rude, o labrador, havia visto em mim. O que nenhum artigo mencionava era a imediata percepção da doença e a empatia do animal. 
Desatei a chorar, mais que criança, e mais lambidas e mais ganidos. E meu amigo ali sem entender nada. Foram minutos de choros, ganidos e lambança. Sentamos na escadaria da porta do meu prédio e contei o que se passava. Expliquei o motivo da bengala e porque não ia incomoda-lo com as minhas agruras. Mais um tanto de choro e abraços caninos e humanos. 
Nos despedimos prometendo nos ver semana que vem, eu, Flavio e Rude. Um tchau triste e solidário nos separou. 
Foi um jorro de carinho ao qual não estava preparado. Foi bom, mas doeu. Em menos de uma hora recebi de um animal mais carinho e consideração que de pessoas que conheço todo uma vida ou que tive intimidade. 
Obrigado, Rude, por ser mais que humano.

Blue Moon

Como pensar, amor meu,

Que nunca mais te poderei olhar?
Como conceber, caminho meu
Não mais das tuas bocas beber?
Como imaginar
Um momento sem meu pensamento em ti?
Não, não roubarão de mim ao menos a lembrança 
Da luz na tua pele branca que
Refletia a lua e todas as constelações.

Humano, demasiado humano.

H(á os) que perguntam 
“Como você está?”
E não querem a resposta. 

H(á os) que dizem
“Queriam tanto ajudar, só não sei como!”
E depois contam suas próprias mazelas. 

H(á os) que o procuram 
Talvez para saber se já morreu,
E falam nada e nada deixam. 

H(á os) que falam 
“Mas você está com um aspecto tão bom.”
Com o olhar de quem espera um desmorto putrefato. 

H(á os) que nada falam 
Se limitam a menear a cabeça 
E dar um sorriso amargo. 

H(á os) que somem, desaparecem. 
Quando o encontram falam 
“Estava tão preocupado com você!”

H(á os) que simplesmente ignoram 
E não te procuram
Não importa o quão íntimo foram. 

H(á os) que dizem palavras bonitas 
Onde você sente a repetição de um mantra
Um mantra do medo. 

H(á os) que dizem palavra de estímulos
Em que você nitidamente ouve
“Ainda bem que não é comigo”

H(á os) que fazem por dó
H(á os) que fazem por pena 
H(á os) que fazem por descargo da consciência. 

H(á os) que nada sabem, nem querem saber. 
E, claro, 
H(á os) que não estão nem aí. 

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Mas…
H(á os) que são diferentes, um tipo especial. 

Dos que lhe dão a mão, o ouvido, a voz. 
Dos que estão ali, sem dó nem piedade, e falam o que precisa ouvir. 
Dos que estão com sorriso e amor nos olhos, sem esperar nada. 
Dos que te olham nos olhos e dizem “Puta que merda!!!”
Dos que lhe perguntam se precisa de algo. 
Dos que lhe trazem aveia e mel, maná necessário para aquecer o corpo e a alma. 
Dos que não perguntam o óbvio. 
Dos que não telefonam por saber que  talvez precise de quietude. 
Dos que o chamam por saber da alma ferida.
Dos que lhe trazem remédios. 
Dos que lhe dão abraços. 
Dos que cuidam. 

Dos que não lhe dão nada
Só estão ali, para o que der e vier

Uma madrugada…

Pessoas aparecem
Descarregam seus medos 
E depois partem. 
Não, não dá. 
Não quero ser culpado disso. 
Já tenho as minhas neuroses
As carrego e é pesado. 
E eu, que sou forte, 
Quando no amor, enfraqueço.
Quero me jogar. 
Amar e ser amado. 

Sou um sobrevivente. 
Mas não sei mais por quanto tempo.