Setenta e nove

Falta-me menos de um ano para meio século. A ti faltaria um ano para os oitenta. Não sei quais palavras lhe diria. Nem sei se ainda conversaríamos, pois somos muito parecidos. Eu hoje, você ontem. E que as parecenças mais afastam que atraem, dizem por aí.


Não sei se poderia imaginar um diálogo com você, mas por aqui, na escrita, podemos tudo.

“Oi, filhão!”
“Oi, paizão. O que conta? Tem conseguido descansar?”
“É, estão sendo bom comigo! Mas sinto falta de vocês.”
“Nós nunca te esquecemos. Como poderia ser se até seus netos são parecidos com você?”
“Tenho visto. O Thiago tá enorme. E o Rafa parece muito a mãe deles. 
E a Tata? Ela me parece muito cansada. Fale pra ela que mandei descansar, se não volto pra puxar o pé dela.”
“Hahaha, você sempre ameaçou fazer isso. Nunca fez. Por mais que a gente esperasse.”
“É que pras bandas de cá não tem disso. É tudo história pra assustar crianças.”
“Ou deixar adultos esperançosos…”
“E a Nanda? Pelo que sempre vejo, aquela pequena não para.”
“Poxa, todos nós herdamos pelo menos alguma coisa de você.”
“Realmente, suas orelhas e nariz são iguaizinhos aos meus”
Torço o nariz e lhe dou um soco no ombro. 
“É bom saber que você não perdeu o humor, pai. Tem aprontado muito por lá? Já pôs curto circuito em tudo por lá?”
“De vez em quando roubo as chaves de Pedro e escondo. Ele fica louco. Mas sempre acha.
E você, filho? Sempre me preocupei com você. Achei maravilhoso quando entrou pra trabalhar com livros. Era de fato o seu mundo. Mas a vida não tem sido boa para você, não é?!?”
“Um probleminha aqui, outro acolá, mas nada para se preocupar.”
“Olha, sempre tive dificuldade de conversar com você abertamente, mas não menospreze a minha inteligência. Eu observo. Eu sei.”
“Deixa isso pra lá, você nunca me disse também que seria fácil, embora tenha tentado muito me poupar.”
“Mas filhão, você tem que se olhar mais, cuidar mais de você. Não deixe que te atinjam como me atingiram. Afinal você tem que cuidar daquela menina linda que você me deu como neta. Como ela tá linda!!! É, filho, sinto lhe informar, mas você se fudeu. Vai dar trabalho.”
“Já dá, mesmo estando longe. Ela iria adorar você. E você iria precisar de mais energia do que teve com a gente. Sabe, pai, ela é feliz. Da maneira dela, mas muito feliz e alegre.”
“Eu sei, eu vejo. Ela é uma luz, e junto com os ruivos, tem o poder de tirar essa dor de dentro de vocês.”
Sorrio por entre as lágrimas. 
“Bom, tenho que voltar. Estão me chamando e eu tenho um compromisso.”
“Mas não vai perguntar da mamãe? Não que saber dela?”
“O que você acha que é esse compromisso? Tenho que me preparar, estar perfumado e elegante pra quando aquela morena chegar. Dela sei mais que você.”
Então me aperta os ombros com suas mãos gigantescas e diz olhando nos meus olhos:
“Otavio, se permita ser feliz. Você não teve culpa de nada e está há muito tempo tentando se redimir. Fale isso pras suas irmãs também. Estou bem.”
E me beijou como só um pai sabe beijar um filho. 
“Te amo, pai.”
“Eu também, filhote. Até!”

2 comentários sobre “Setenta e nove

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