Trigo da elite

Na cidade,
O esgoto dos ricos
A merda dos pobres
Os ratos
cagam no trigo da elite.
É o ciclo,
É o círculo,
É o circo da des)humanidade.
Nas praças,
A água
O vômito
O mijo
l(e)ava o humilhação do público  humano.
É o caminho,
É a cama,
É o crime da des)humanidade.
Nas ruas,
Os motores
As motos
Os monstros
atropelam nas encruzilhadas.
É o luxo
É o lixo
É a diarréia da des)humanidade.
Nas calçadas
Os moradores
As meninas
As mulheres
                    morrem no lixo da urbanidade.
É a sobra
É a sombra
É o desprezo da des)umanidade.
Nas quebradas
Queima
a pedra
o fogo
os pneus do microondas.
É a vida
É a morte
É o fim da humanidade.
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As mãos da vida

Uma senhora negra de cabelos grisalhos presos em coque ao atravessar a rua de mão dada com seu neto, parou e olhou na direção em que vinha o carro.

O neto, de uns sete anos, aquela idade que fala tudo e não esconde nada, a advertiu de que ela tinha que ter olhado para os dois lados, que foi assim que ensinaram na escola.

A avó, depois de atravessados, disse que naquela rua não precisava pois era de mão única.

Eis que o menino, na altura da sabedoria de todas as molas da sua cabeça, disse com a mão na cintura:
“Vovó, a vida é que nem um polvo, tem muitas mãos. A gente nunca sabe por onde ela pode nos pegar!”