Que seja a última vez…

Que eu ande por este asfalto
Que eu atravesse esta rua
Que eu desvie dos carros
Que eu ouça as sirenes
Que eu veja este prédio (e não sinta vontade de fugir)
Que eu entre por este corredor
Que eu fale com esta recepcionista
Que eu sente nestes bancos
Que eu sinta o vento frio deste salão
Que eu cheire a mistura adocicada de éter com álcool
Que eu espere a minha vez
Que eu comprimente minha médica
Que eu comprimente os enfermeiros (e auxiliares)
Que eu caminhe até esta sala
Que eu deite nesta cama
Que eu sinta o gelado do álcool na pele
Que eu sinta a picada na veia
Que eu sinta o líquido entrando por ela
Que eu sinta (de novo) vontade de fugir
Que eu fique sonolento
Que eu me deprima
Que eu fique ansioso
Que eu espere mais ainda
Que eu saia deste lugar
Que eu chegue em casa cansado
Que eu enjoe e vomite
Que eu tente dormir e não consiga
(Que eu escreva textos tolos como este)
Que eu perca a esperança
Que eu tenha que lutar
Que eu me enlute por mim mesmo
Que eu me sinta sozinho
Que eu pense no fim,

Mas que seja,
de uma vez,
a vez da vida
na minha vida,